Blog do Akaédyon

Liberdade amarga

Crônicas cabulosas contadas com calma

Obs: Texto não editado.

Naquele dia, o garoto se sentou a tarde na varanda descoberta pra escrever seus desgostos enquanto tomava um terrível chá de folha de goiaba, feito por dua doce vó.

Ele havia, como muito sempre, assistido novamente mais uma teatro de tudo aquilo que ele nunca havia feito na vida, se quer uma vez.

Eu o achava curioso. Sua vida era viver de olhar os outros vivendo e imaginar como seria se ele viesse aquilo. Posso dizer que ele vivia, mas não neste plano, porque enquanto alguns dos que eles observava tinham amores platônicos que um dia se tornavam verdade, a insignificante vida dele até este momento, tinha sido vivida completamente de forma platônica.

Um ávido sonhador.

Ele repetia para si que "sonhar não paga" enquanto isso estava lhe cobrando o preço de lhe matar, enquanto ainda nem tinha vivido direito.

Ele se recordou de um tempo remoto de criança.

Estava na cidade com sua, como posso dizer... Alguns chamariam de outro nome, mas eu as vezes a tenho por credora, talvez, de um karma tão antigo quanto a própria existência. Ele passeava com ela tão atarefada, que mal podia parar para lhe dar atenção real, ou, se ele já o havia lhe feito tal ato, ele talvez egoistamente não viu, não se lembrava ou realmente, nunca havia acontecido.

O menino avista um homem andando na praça. Ele carregava dversos algodões naquela manhã nordestina.

— Me compra um algodão por favor! — Na volta eu compro.

Só se for na volta de Cristo, que por sinal, está atrasado a mais de mil anos.

Essa cena, tão simples, que talvez possa mesmo ser apenas um delírio desse garoto de hoje, nunca lhe saiu da cabeça. Será que foi um sonho? Ele não sabia. Mas era tão real quanto a vida vivida por aqueles que ele observava passando em frente da sua casa de moto, esbanjando sua tão movimentada vida e, ainda mais real do que aquilo que ele via sendo, ilusoriamente vivido nas telas das falsidades.

Acontece que esse garoto, se recusa até hoje a comer algodão. Ele é um arrogante. No fundo, ele sente sua boca salivar quando ele vê aqueles pacotes coloridos, balançando com o vento. Mas ele se recusa, é como uma porta sem chave.

E quando digo sem chave, quero dizer até mesmo sem fechadura. Veja.

Sua vida foi realmente apenas um quarto fechado. Onde ele flutuava no mundo das abelhas, sem nunca ter saído da cama. Um idiota.

As vezes é fácil pensar isso dele pois ele dá muitos motivos pra isso.

No dia em que ele resolveu abrir a porta, foi quando ele percebeu que quem tinha a chave era ele mesmo. Mas não foi algo tão consciente. Foi como um vendaval. Quando percebeu estava do lado de fora, mas ainda assim não sabia viver, pois sua cabeça ainda estava lá, dentro daquele quarto, onde continua até hoje.

Hoje, quando ele se sentou pra escrever, ele me contou umas coisas com um olhar de esclarecido, mas com uma profundeza tão vulgar que se percebia de longe que ele estava abatido. Ele não negava isso, mas também gostava de estar certo e ser aplaudido. Estava tão acostumado a sofrer e perder, que de algum modo, isso se tornou pra ele um pódio. Não um que ele lutou pra ganhar, mas a única opção que a vida lhe ofereceu.

Ele me disse que um dia, havia comprado uma dessas telas de ilusões que muito se vê nas mãos dos jovens e até mesmo dos tão doces e as vezes, preconceituosos idosos. Exatamente isso que você está pensando.

O poder que o dinheiro lhe deu, no único momento em que sua vida poderia ser vivida, era desperdiçado com coisas tão fúteis, como a vida dele mesmo.

Mas será que a vida não é só sobre isso mesmo? Uma futilidade que se gasta de maneira fútil... Não se pode saber.

O que se sabia é que ele com certeza iria buscar sua encomenda, pois ela havia chegado.

Ele a confiara a uma amiga, uma amiga que hoje ele me diz que foi como uma dessas amizades sazonais. Fazemos promessas eternas, que duram apenas uma estação, mas o pouco tempo que durou, digamos que foi exatamente isso. Durou...

Alegre com sua compra ele se lembrava dos tempos de criança. Havia conseguido seu tão amargo algodão doce, mas agora, sem esperar pela volta.

Ele sorri.

Eu digo que esse sorriso dura até hoje, mas não pode ser visto, porque não somos mais capazes de ver, atolados em nossa própria arrogância.

Mas ele me contou, continou contando e eu escrevia isso pra ele.

Ele disse:

— Nesse dia, eu vivi um misto de tantas coisas que não posso nem lhe explicar. Eu esperimentei a alegria da aquisição, enfrentei o retrato da intolerância, e naufraguei no mar da inconsciência.

Ele me disse que neste mesmo dia, foi a casa de um desses presunçosos que batem na porta aos domingos, para lhe convencer de que eles estão certos e que você deveria fazer o mesmo.

Realmente, foi um momento onde que ele pode contemplar a repressção que ele sofria de seus credores, mas agora, em um formato de paz exculpida, por escultores renomado no ramo do marketing da hipocrisia.

Ele, para essas tão hostis ovelhas, consegiu se retratar sem necessidade, que não poderia lhes garantir parceria, visto que o mesmo não se adequava a seus ideais, bem como também não queria fazer isso.

Ele ainda ouviu, dessa tão dócil esposa uma frase curiosa, mas que lhe fez pensar, ela disse:

— Percebemos mesmo que você tinha problemas com homossexualidade.

Depois eu fiquei pensando e ele ouviu até mesmo isso de sua amiga sazononal: "Seria a homossexualidade um problema?"

Sinceramente, acredito que não, mas ele me confessou no final da conversa que, na próxima encarnação, ele vai ver se tem como escolher nascer hétero. Disse parecer ser mais simples.

Isso na verdade, era apenas mais um reflexo. Um reflexo de sobrevivência.

Ele brincava com aquilo como se fosse algo natural. Se o assunto era esse problema, em frente a seus credores, isso era tratado como algo de "brincadeira", já que ele mesmo nunca conseguia revelar a verdade pra eles, com medo da rejeição, daqueles que nunca o aceitaram.

Ele cresceu como um passarinho, que aprendeu a cantar e ser admirado. Sob o controle de uma gaiola. Mesmo quando, por um aparente longo período ele conseguiu escapar, esse tempo passou como um floco de neve perto da fornalha do rei Nabucodonosor.

Nunca pode falar. Nunca pode realmente ser ouvido. Nunca pertenceu, mas também, nunca se ligou, apenas, como uma raposa, usou de sua astúcia, para sobreviver e isso, para ele que mais vivia no mundo da lua, era o mínimo que poderia ser feito ante seus carcereiros.

Um verdadeiro escritor.

Nesse dia ele experimeitou o descuido de de deixar se levar pelo acaso.

Ele disse:

— Naquele dia eu fui a casa de um amigo com quem eu morava quando estava em São Paulo antes de arranjar meu emprego. Ele estava com os parentes e faziam uma pequena confraternização com bebidas, música e churrasco e eu não consegui deixar de aproveitar o momento.

Eu fiquei realmente espantando em ouvi-lo falar sobre aproveitar. Mas fiquei ainda mais surpreso com o fato dele lacrimejar depois de falar isso.

— Por que você ficou assim pra baixo do nada? Não estava dizendo que aproveitou. — Sim eu aproveitei. Junto com as risadas deles eu me entreguei. Eles me ofereceram um gole de cachaça direto do alambique e eu tomei. Algo simples, mas terrivelmente ruim. Não gostei, tomei apenas pela influência. Mas eu fui livre, eu fui livre pra beber como nunca antes, fiz porque quis.

Eu sabia o porquê de que ele estava abatido agora, eu conhecia o olhar de quem descobre a verdade, não é como os que conhecem apenas a ilusão. Mas insisti em perguntar:

— Então me diga o motivo pra se sentir triste! — Naquele dia eu descobri que a liberdade é amarga, e a submissão... A submissão é uma composteira. Que gera o adubo onde são plantadas as sementes dos opressores. Eu descobri, o porquê das pessoas lutarem tanto pela liberdade. Não é porque ela é fácil ou divertida, não verdade, eu não sei exatamente o que é liberdade. Talvez seja um conceito muito além de qualquer compreensão.

Aquele garoto melancólico, que via num copinho de pinga um significado pra vida, ficou olhando feito um idiota arrogante pra o que ele tomava agora: um como de chá de folha de goiaba para uma dor de barriga.

Curiosamente, esse chá era amargo como a pinga que ele tomou, mas isso lhe lembrava que a liberdade, além de amarga, precisa de reparos. E nem sempre ele são fáceis de se conseguir.

— Naquele dia, eu fui feliz. Eu me entreguei completamente a bebida. Sorri, pulei, dançei. Me atirei em qualquer homem que eu julgasse atraente. Por um período eu fiquei inconsciente, mas, em minha memória, guardo os vultos daquele dia em que me entreguei ao mar dos prazeres mundanos que meus credores e a igreja, tanto me disseram ser os male do mundo. Eu pude entender completamente os motivos que eles tiham e, confesso que não eram poucos. Eu dei trabalho pra outros, mas fui feliz. Mesmo que estive inconsciente por um curto período. Talvez a paz, seja isso. O cessar.

Infelizmente, eu não pude compadecer do que este garoto dizia. Eu sabia o quanto ele era falso. Conhecia-o melhor do que ninguém, pois sempre estive com ele. Eu sabia, que mesmo que, naquele dia ele tinha se entregado a tais prazeres e voado completamente pra fora de sua gaiola, ele também, nesse mesma madrugada, foi obrigado a se esclarecer, a seus credores karmicos sobre o que fez e o quanto se arrependia daquilo.